Memória

Uma igreja que nasceu para acolher

Do seminário à comunidade do Shangri-Lá: a construção da igreja, sua arte e os sacerdotes que acompanharam esta caminhada.
Fachada da Igreja Rainha dos Apóstolos em Corpus Christi de 2026

Em princípios de 1947 foi empossado no seminário o terceiro governo, sob a chefia do Pe. Carlos Giebel. A promoção deu-lhe ensejo de perpetuar seu nome na história dos padres palotinos com a construção da igreja dedicada à Rainha dos Apóstolos. Falamos de igreja, pois não se tratava de uma capela interna para os seminaristas, mas sim de uma igreja semipública, acessível e aberta também para os católicos do bairro.

Esta intenção determinou o local da construção: o terreno ao lado leste do prédio, destinado inicialmente para uma ala lateral. Determinou-lhe também as dimensões. Seguindo as instruções do governo da casa, o arquiteto Dr. Lohbauer, de São Paulo, forneceu a planta para uma igreja retangular de estilo romano, com nave de 13 por 33 metros, presbitério de oito por oito metros e duas sacristias. O tamanho era de uma matriz paroquial.

A construção dos alicerces e o levantamento das paredes foram tratados com a firma Construtora Brasil, de Londrina, representada pelos senhores Kretsch. O seminário incumbiu-se do fornecimento do material (tijolos, areia, etc.), visto que contava com grande número de benfeitores, tanto na cidade como na zona rural.

Em 15 de janeiro de 1948 o primeiro material foi descarregado no lugar da construção e em maio ela estava em pleno andamento.

Ao mesmo tempo os Irmãos Marino, de Jacarezinho, preparavam o madeiramento para o telhado, serviço que terminou em abril de 1949 com a colocação das tesouras e telhas.

Naquele tempo ainda se podia falar de mata virgem em Londrina. A indústria de madeira florescia. Certo dia os Irmãos Schneider, marceneiros finos e já conhecidos no seminário por trabalhos menores, vieram com uma sugestão. Pensavam eles que este novo templo de Deus havia de conservar para as gerações futuras a lembrança perene de que surgiu do sertão, e isso pelo farto uso de madeira em seu acabamento interior.

A bela ideia conquistou a simpatia do reitor e a execução foi entregue justamente a eles. Na oficina começou o febril trabalho de lavrar a madeira. O forro de caixilhos, a tribuna dos cantores, o oratório ao lado, a longa barra a vestir a parte inferior das paredes, os três altares, a mesa de comunhão, o púlpito e os armários tomavam conta do ambiente. A grande tarefa terminou em dezembro de 1950.

Quanto às janelas, o cronista refere apenas que foram dádivas de benfeitores. As janelas do presbitério e da tribuna dos cantores ficaram em branco, e a nave recebeu a luz por 11 vitrais, bem altos, mas um tanto estreitos, que foram distribuídos de acordo com o espaço, sete na parede exterior e quatro na interior. Representam em cores vivas os mistérios do rosário. Por sorte o desenhista gravou o seu nome na obra.

Foi o escultor Bernardo Heise, artista conhecido em São Paulo. A este seu amigo o reitor Pe. Carlos Giebel confiou também toda ornamentação da igreja. Consistia numa série de estátuas em tamanho natural, e de várias obras de alto relevo, entre as quais se realçavam as 14 estações de uma via-sacra de grande valor. A tarefa era exaustiva para um só homem e de idade adiantada, sua execução um tanto incerta, em vista do longo tempo e dos custos que exigia. Para salvar a harmonia do conjunto não foi admitida concorrência com outros artistas. Também ficou de pé o princípio: tudo de madeira.

Heise começou a sua tarefa com a cena do calvário, isto é, com o crucifixo, ladeado das estátuas de Nossa Senhora das Dores e de São João Evangelista. O grupo foi fixado na parede da abside, acima do altar-mor. Impõe-se ao ambiente porque é de tamanho natural.

Seguiram, depois, as estátuas de São Vicente Pallotti, de Nossa Senhora Mãe Três vezes Admirável e outras. Também a via-sacra foi começada durante o governo de Pe. Carlos Giebel, com dois quadros. Devido à sua transferência deixou a seus sucessores o complemento da obra.

Em dezembro de 1950 a igreja estava em condições de ser inaugurada. Como data, foi escolhida a festa do Natal. De fato, no dia 24 de dezembro de 1950 Pe. Alberto Strittmatter, vigário da matriz do Sagrado Coração de Jesus, realizou a cerimônia da bênção e o reitor rezou a missa solene. No sermão esclareceu a importância do dia para o seminário e para o povo católico do bairro.

A igreja estava totalmente lotada e, durante todo o Natal, os fiéis se comoveram presenciando a liturgia festiva que o espaço possibilitava. Notava-se que, já desde o começo, a igreja tomou feição de matriz. Doravante, os padres rezavam duas missas nos domingos e festas, uma cedo para os seminaristas e uma às 10h para o povo.

No dia da inauguração a igreja ainda não tinha assoalho. Em 27 de dezembro de 1950, os pedreiros começaram o ladrilhamento, que foi terminado em janeiro de 1951.

A fachada foi coroada por uma pequena torre no meio, destinada para os sinos. Estes vieram em 14 de março de 1950 da fábrica Bellini, Garibaldi, RS.

Eram três: o maior, consagrado à Rainha dos Apóstolos; o médio, a São José e o pequeno a São Vicente Pallotti. Começaram a funcionar com uma bênção simples, esperando por mais de dois anos a consagração. Finalmente, no segundo domingo do mês de julho de 1952, Dom Geraldo Sigaud compareceu ao seminário para este fim. A cerimônia foi realizada no pátio, em frente da igreja com a assistência dos padres, seminaristas e amigos. No sermão, Dom Geraldo exprimiu a sua satisfação, louvando o trabalho pastoral que os padres faziam na sua igreja.

A aparência exterior da igreja não é monumental. Está incorporada ao prédio do seminário e este lhe diminui a individualidade. A fachada simples, elaborada por Bernardo Heise, não agradou ao construtor, Pe. Carlos Giebel. Todavia, o fim de seu governo pôs fim também aos seus planos. A beleza da igreja está no seu interior. A luz, quebrada pelos vitrais coloridos e pelo brilho opaco da madeira envernizada, dá-lhe um ar místico que convida ao recolhimento.

Altar e assembleia na Igreja Rainha dos Apóstolos durante Corpus Christi
O interior da igreja durante a celebração de Corpus Christi de 2026. Acervo da Pascom.

A criação da paróquia e os primeiros pastores

Em 20 de fevereiro de 1958, foi criada a Paróquia Nossa Senhora Rainha dos Apóstolos, tendo como sede a igreja do seminário palotino. O primeiro pároco, Pe. José Roth, de origem alemã, tomou posse em 19 de março de 1958, pelo então vigário-geral Pe. Carlos Probst.

Pe. Paulo Speiser chegou a Londrina em 16 de abril de 1958 como vigário coadjutor, acompanhando as capelas do Espírito Santo, Vila Regina, São Luiz e Taquaruna. Em 4 de abril de 1959, assumiu a paróquia após o afastamento do Pe. José Roth. Em dezembro daquele ano, Pe. Victório Scremin passou a exercer a direção espiritual do seminário e o serviço de coadjutor, com assistência às capelas.

No início de 1964, Pe. Guilherme Krause substituiu temporariamente Pe. Paulo Speiser durante sua viagem à Alemanha. Em 10 de julho de 1964, Pe. Francisco Schneider tomou posse como pároco, contando com a colaboração dos padres Guilherme Krause e Xavier Faisis, citados no registro histórico paroquial. Em dezembro de 1967, Pe. Francisco foi transferido para a Catedral, onde se dedicou também ao magistério e aos estudantes.

O nome de Pe. José Maria Maimone está ligado à direção do seminário e ao serviço pastoral de nossa comunidade. Sua biografia publicada pela Diocese de Umuarama registra o período de 1970 a 1971 como pároco da Rainha dos Apóstolos. Mais tarde, Dom José Maria Maimone tornou-se o primeiro bispo de Umuarama, onde tomou posse em 16 de setembro de 1973.

Os registros preservam também a memória dos padres cooperadores: Pe. Clemente Herrmann acompanhava as associações paroquiais, os grupos escolares e a Capela do Espírito Santo; Pe. José Schwind atendia as capelas da Fazenda Santa Maria e de São Luiz; Pe. Conrado Schultis cuidava das capelas de Vila Regina e da Fazenda Seara. Em 1968, Pe. Roque Kiefer também prestou serviço às capelas. No dia 17 de novembro daquele ano, Pe. Carlos Tiago Begnini passou a atuar nesse trabalho e, após a transferência de Pe. José Schwind, assumiu também o cuidado da Capela de São Luiz.

Em 1973, Pe. Carlos Tiago Begnini assumiu a função de pároco, permanecendo até 23 de fevereiro de 1975. Nessa data, Dom Agostinho Marochi empossou Pe. Eberhard Josef Abert, que contou com Pe. Antônio Luiz Radigonda como vigário. Após a saída de Pe. Eberhard, em janeiro de 1976, Pe. Antônio assumiu temporariamente o serviço até a nomeação do novo pároco.

Em 7 de março de 1976, Pe. Francisco Schneider voltou à paróquia. Esse segundo período se estendeu até 17 de fevereiro de 1996, quando ele assumiu a Paróquia Nossa Senhora de Nazaré. Conhecido com carinho como Pe. Chiquinho, seu ministério acompanhou gerações de famílias e a formação de novas comunidades em Londrina.

Pe. Antônio Luiz Radigonda tomou posse novamente em 18 de fevereiro de 1996. Na continuidade dessa caminhada, Pe. José Alves de Souza foi pároco de 2009 a 2015, período registrado em notícia da Arquidiocese sobre a imagem de São Vicente Pallotti. A atuação de Pe. Pedro Ramos de Faria e Pe. Moacir Santo Gionco na comunidade aparece em registros locais de 2016; em 2018, Pe. Pedro coordenou a bênção aos motoristas durante a Semana Missionária.

Pe. Bruno Áthila Nascimento Silva chegou a Londrina em 2018 e aparece como pároco em publicações de 2019 a 2024. Acompanhou a vida da comunidade e pesquisou o patrimônio artístico da igreja, especialmente a Via-Sacra de Bernhard Franz Heise, tema de sua tese de doutorado apresentada à Universidade Estadual de Londrina em 2025.

A comunidade segue sua missão com Pe. Reinaldo Baggio, SAC, pároco, e os vigários paroquiais Pe. João Vitor de Paula, SAC, e Pe. Antônio Fiori, SAC. Seus nomes e funções constam nos diretórios da Arquidiocese de Londrina e da Província São Paulo Apóstolo consultados em setembro de 2026. A memória dos sacerdotes e de tantos leigos que serviram à paróquia permanece como convite à oração, à gratidão e à continuidade da missão.

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