O medo é uma fraqueza que toca a cada um aleatoriamente? É algo diante do qual nada há de se fazer? É possível viver a vida como homens frouxos, ou como homens de fé, mesmo sabendo que nossas escolhas poderiam ser determinadas por essa paixão?

Para os Padres do Deserto, a questão é clara e simples: o medo é uma doença, portanto, uma condição patológica antinatural do homem. Certamente, existem fatores educacionais que podem tornar uma pessoa vulnerável a esse respeito: certa idolatria do bem-estar, à qual muitas pessoas oferecem seu incenso e sua adoração.

Esta idolatria do benessere (bem-estar) é fortemente oposta à educação que sempre reconheceu nos riscos, nas dificuldades, na doença, ou nas derrotas, grandes aliados para formar e compor homens de caráter, adultos e amadurecidos, e não eternos bebês.

O medo paralisa o homem; insinua-se como uma corrente persistente de pensamentos, que, obsessivamente, apresenta cenários futuros dramáticos, que são vivenciados, emocionalmente, como se fossem reais.  Provocam e germinam a angústia, o pânico, os humores que estacionam o homem, deprimem-no e empurram-no impedindo-o de se posicionar e lutar.

Neste contexto, a palavra de ordem é fazer de tudo para manter a comodidade e evitar qualquer tipo de dificuldade induzindo-o a não se expor e não correr riscos.  A verdade, a bondade, a fidelidade a Deus e ao próximo, e a sua glória, ou são totalmente removidas ou, de forma mais pacificadora para a consciência, são “acomodadas” a um estilo de vida banal e simplório.

 A mediocridade torna-se a marca registrada dos medrosos e pusilânimes; e sabemos como o medíocre ou morno será julgado por Deus: “Conheço as tuas obras: não és nem frio nem quente. Oxalá fosses frio ou quente! Mas, como és morno, nem frio nem quente, vou vomitar-te” (Ap 3,15-16). Por isso, é necessário reagirmos a esta paixão mortal da alma.

Os Padres do Deserto, grandes conhecedores da alma humana, dão indicações muito precisas, que estão ao alcance de todos: «Quem se esforça na oração pura e sincera ouvirá ruídos e estrondos, vozes e insultos; mas ele não desanimará, nem perderá a tranquilidade, dizendo a Deus: Não temerei mal nenhum, porque tu estás comigo» (Evágrio Pôntico (Padre do Deserto), A oração, 97).  O cristão deve ter, constantemente em seus lábios, as palavras de confiança presentes nas Escrituras, para que desçam ao seu coração e o curem em profundidade desta paixão do medo. 

Evágrio lembra-nos o Salmo 23 [22], que também pode ser acompanhado pelo Salmo 27 [26]: “O Senhor é a minha luz e a minha salvação, de quem terei medo?  O Senhor é a defesa da minha vida, perante quem eu temerei?  […] se um exército acampa contra mim, meu coração não teme; se a batalha irrompe contra mim, ainda assim tenho confiança».  E ainda acrescentaríamos o Salmo 91 [90], confiado à oração quotidiana dos monges por São Bento – na hora das Completas – para que todas as formas de medo fossem afastadas do seu coração, dia após dia. Ainda hoje na Liturgia da Igreja, nas Completas [Oração da Noite] reza-se este salmo.

Que saibamos manter a palavra de Deus nos lábios e o pensamento de Deus na mente, como ensina este apotegma: «Disse um ancião: “dormindo ou acordado, qualquer coisa estejas fazendo, se Deus está diante dos teus olhos, também a força de Deus permanecerá em ti”». 

Os demônios fazem de tudo para arrebatar nossos pensamentos, ao buscarmos soluções sofisticadas para os problemas, por menores que sejam, ao afundarmo-nos em vãs preocupações, ao desviarmos nossa consciência para as coisas materiais – a fim de evitar que permaneçamos em Deus; eles sabem, muito bem, que quando a atenção do homem vaga longe de Deus, torna-se fácil fazê-lo cair no medo e no desespero. 

Assim, como nos ensinam os Padres do Deserto, o temor de Deus, esta consciência constante de viver sob o seu olhar, é a solução radical para o medo.  E, tenhamos sempre em mente que, o esquecimento de Deus é o combustível ideal para que os fantasmas diurnos e noturnos percorram nossa existência, atordoando-nos e desviando-nos da vida cristã que almejamos ter e ser, no cotidiano de nossas vidas.

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