Entremos, um pouco, com a nossa reflexão, no interno do horizonte escuro do homem sofredor. O “horizonte escuro” que se refere aos limites do homem aos seus extremos e à sua fragilidade ou decrepitude.

Os limites mais gritantes do homem são a doença e a solidão. Refletir sobre nossa criaturalidade e sobre nossos limites como humanos é essencial e determinante em nossa existência.

O filósofo católico, Emmanuel Mounier, diz: “não pensemos a dor como uma experiência de uma coisa que é arrancada, mas como a experiência de uma coisa que nos é doada e que nós doamos”. Mounier faz esta afirmação em um contexto de grande prova e sofrimento, logo após sepultar sua pequena filhinha, vitimada por uma doença fatal, aos sete meses de idade. Ele dizia que se aproximar do leito de sua filha doente era como aproximar-se de um altar, onde sua pequena Françoise unia seu sofrimento àquele do Cristo.

Suas palavras nos levam a imaginarmos o nível espiritual deste leigo católico. São palavras sinceras, resultantes de uma experiência singular, capaz de revelarem um ser crente diante do sofrimento consubstanciado pela dor, e inerente à perda de um ente querido ao extremo – sua filha amada.

O cristão católico deve ter um modo próprio de enfrentar e encarar o sofrimento, afinal, “Deus não veio para explicar o sofrimento, mas veio em Cristo para plenificar o sofrimento com a sua presença” (Claudel). Em Cristo, Deus se inclina sobre o homem sofredor.

Com a encarnação, Cristo assume plenamente o nosso limite. O gnosticismo não aceitava esta realidade. É difícil aceitar que Deus assume a nossa dor, nossas chagas e nossas feridas. É o escândalo da cruz, do qual bradava São Paulo Apóstolo. Ainda neste mundo terreno, Jesus Cristo perpassa seu tempo curando dores e restaurando corações. Ele atravessa a gama da dor e do sofrimento. Para além de nossa humanidade, Jesus experimenta outras dores terrenas, como a solidão e a traição.

O sofrimento cristão vivido à luz de Cristo, possui um sentido diferente. Jesus viveu a condição de sofrimento com muita dignidade. O Altíssimo não nos protege do sofrimento e da dor. Em Cristo, Ele nos sustenta, nos fortalece e nos alimenta, para que, com o nosso sofrimento, possamos alcançar a vida eterna.

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