Iniciaremos um novo ano e, com ele, se abrem novas perspectivas. O novo ano se abre no calor afetuoso do Natal.  Contemplamos a infinita benevolência de Deus, que assume a nossa carne para redimir o homem da escravidão do pecado e da morte, cumprindo o desígnio que diz: “Nele havia predeterminado o desígnio, que é recapitular, em Cristo, todas as coisas, tanto as do céu como as da terra” (Ef 1, 9-10).

O esplendor do Natal se configura como revelação plena do mistério de Deus e do mistério do homem: tudo isso se torna visível e se encontra no Verbo feito carne.  Ele é o logos, termo designado à segunda pessoa da Santíssima Trindade, ao mesmo tempo que indica que, Nele, Deus apresenta ao homem a sabedoria insondável em que consiste o sentido da vida e da História.  São João Paulo II, assumindo o magistério do Concílio Vaticano II (cf. GS 22), quis essa verdade fundamental da fé como referência programática para todo o seu pontificado.

 O tema é de uma atualidade profunda e urgente, pois o homem contemporâneo está angustiado na busca do Bem, da verdade e da alegria. Perdendo-se na presunção de ser autossuficiente, ele é dolorosamente decepcionado por substitutos passageiros, oscilando perigosamente entre a intoxicação de uma onipotência agressiva (e falsa) e a depressão de um desencanto feroz.

 O Natal chega até nós com uma simplicidade desarmante e atrai o nosso coração com o pressentimento da Verdade – também com a saudade de um bem que se busca com ansiedade e raramente se desfruta. Deus se torna criança para indicar que só o olhar puro dos pequenos, capaz de maravilhar-se, pode interceptar a presença de Deus e acolher o dom da salvação: “A quem O acolheu deu o poder de se tornarem filhos de Deus” (Jo 1,12).

 Antoine de Saint-Exupéry, na dedicatória de sua obra “O Pequeno Príncipe”, escreve o seguinte: “Peço perdão às crianças por ter dedicado este livro a uma pessoa adulta.  Tenho uma desculpa séria: essa pessoa é o melhor amigo que tenho no mundo.  […] Vou dedicar este livro à criança que Ele foi um dia. Todos os adultos já foram crianças (mas poucos se lembram disso)”.

 Para compreender e receber a graça do Natal, também, para cada um de nós, é necessária essa atitude. Não se trata de um sentimentalismo efêmero, mas da “infância espiritual”: uma clara necessidade evangélica, condição indispensável para poder “ver” o Reino de Deus.

 A dimensão da fé evoca a responsabilidade de uma escolha e nunca pode ser entendida (modernamente) como a presunção humana de ser “a medida de todas as coisas”. Essa é, provavelmente, a razão profunda pela qual o mundo, que “está sob o poder do Maligno” (1 Jo 5, 18), rejeita a alegria deslumbrante do Natal, combatendo-o abertamente ou tentando distorcê-lo e diluí-lo de acordo com as modas da época.

O Natal volta a nos dizer que a relação com Deus é vital para o homem, que “não nascemos do sangue, nem da vontade da carne, nem da vontade do homem” (cf. Jo 1, 13) e que, sem Ele, a vida não tem sentido ou consistência.

 No medo do tempo presente e na tristeza das nossas infidelidades, deixemo-nos ser procurados e encontrados por Deus e não o excluamos da nossa história, pessoal e coletiva, com esquecimento ou indiferença.

Foto: Arquivo pessoal