A comemoração dos mortos teve origem na França, no início do século X. No convento de Cluny vivia um santo monge, o Abade Odilão, que era muito devoto das almas do Purgatório, a tal ponto que todas as suas orações, sofrimentos, penitências, mortificações e missas eram aplicadas para a sua libertação do Purgatório. Conta-se que um de seus irmãos, voltando da Terra Santa, disse-lhe que havia sofrido com uma terrível tempestade na costa da Sicília; ali conheceu um eremita que disse ouvir com frequência os gritos e as vozes tristes das almas do Purgatório que vinham de uma caverna junto com as dos demônios que gritavam contra ele, o abade Odilão.

Ao ouvir essas palavras, ele ordenou que todos os monges de sua Ordem definissem 2 de novembro como um dia solene para a comemoração dos mortos. Era o ano de 928 d. C. Desde então, todos os anos a “festa” de finados é celebrada neste dia que representa para todos uma pausa na vida para recordar com certa nostalgia o passado vivido com os nossos entes queridos que o tempo e a morte tiraram, o bem que aqueles que nos precederam na terra deixaram à humanidade e sua contribuição para o aumento da fé, da esperança, da caridade e da graça na Igreja.

O dia 2 de novembro é o dia que a Igreja dedica à comemoração dos defuntos, que o povo chama simplesmente de “Comemoração de finados”. Porém, até mesmo na missa diária, a Igreja sempre reserva um pequeno espaço chamado “memento, Domine…”, que significa “lembrai, Senhor…” e propõe orações universais de sufrágio às almas de todos os defuntos no Purgatório. A Igreja, de fato, com os seus filhos, é sempre mãe e quer senti-los presentes num só abraço. Portanto, ora pelos mortos como reza pelos vivos, porque também estão vivos no Senhor. Por isso, podemos dizer que o amor maternal da Igreja é mais forte que a morte.

O presente parece provisório, tão provisório que não conta, que “não existe” em si mesmo: conclusão ou epílogo de ontem, antecipação ou prólogo de amanhã. Tudo passa. Dia após dia, o tempo passa. Passo a passo, a jornada torna-se cada vez mais cansativa. Ato após ato, o desgaste das forças físicas do envelhecimento se faz sentir cada vez mais. As alegrias passam e as dores também. Então, nós também passaremos; e os nossos dias terminarão nesta terra. A referência à realidade da nossa morte também nos convida a dar importância às coisas essenciais, aos valores perenes e universais, que elevam o espírito e resistem ao tempo. “Acumule tesouros no céu, onde nem a traça corrói nem o ladrão pode roubar”, aconselha Cristo aos seus discípulos.

É, de fato, o terror de um momento e não da eternidade que nos assusta. Muitas perguntas surgem: como será esse momento? Quanto tempo vai durar? Quem vai me ajudar? Eu ficarei sozinho? Onde estarei? Em casa, na rua, no trabalho, enquanto oro ou estou distraído com outros assuntos? Quando isso vai me surpreender? A ideia de ficar sozinho, cara a cara com a morte, vítima e agressor, pode produzir desconforto e medo em vida. No entanto, para os verdadeiros cristãos, não deveria ser assim.

A vida é uma jornada que envolve a passagem de uma condição a outra, da infância à adolescência, da adolescência à juventude, à maturidade, à velhice e da velhice à eternidade através da morte. A morte se torna ou deveria ser um doce encontro, não uma queda no nada, mas o fechamento e a abertura simultâneos de uma porta onde a terra e o céu se encontram.  Afinal, o pensamento da morte volta cada vez que nos dirigimos a Nossa Senhora com a oração do Rosário: “Santa Maria, mãe de Deus, rogai por nós, agora e na hora da nossa morte”. 

Vista à luz de Deus, a morte torna-se não um pôr-do-sol, mas um belo amanhecer que anuncia a vida eterna com Deus junto com os anjos e os santos que nos precederam na terra.

(*) Inspirado e traduzido de um texto do Padre Giovanni Lauriola ofm