Todos nós trazemos no coração um profundo desejo de ser compreendido.

A compreensão é fundamental em nossos relacionamentos. Por exemplo, quando uma relação se desfaz, o que nos vem à mente são pensamentos tais como: “eu não fui compreendido” ou, “não nos compreendemos” ou ainda, “eu pensei que ele (ou ela) era uma pessoa, entretanto…”.

Fazer-se compreender não é uma tarefa fácil. Falta-nos, muitas vezes, a compreensão de nós mesmos, do nosso interior, somos mistério puro, inclusive a nós mesmos.

Em Lc capítulo 9, Jesus pergunta aos seus discípulos “Quem diz a multidão que eu sou?”. Jesus exprime o desejo de ser conhecido, mas, também, faz a experiência de não ser compreendido: as pessoas continuam a projetar sobre Ele velhos esquemas que não as permitiam “captar” a novidade de Sua pessoa. Do mesmo modo, muitas vezes, nós preferimos rotular os outros, instalando uma compreensão sobre a pessoa. Na Itália se diz: “sei carta conosciuta”, você é conhecido já, consigo ler a tua vida etc.

Jesus coloca ainda: “Se alguém quer vir após mim, negue-se a si mesmo, e tome cada dia a sua cruz, e siga-me”. Ele convida seus discípulos a irem até o fundo com Ele, na humilhação e, sobretudo, no sofrimento. Talvez as coisas não estejam claras, talvez o caminho que haviam percorrido não fora suficiente para a compreensão desejada.

Quando Jesus faz a pergunta fundamental sobre Sua pessoa, Ele se encontrava em oração no deserto. E é este o lugar de onde devemos partir, o lugar de onde hão de brotar – as perguntas fundamentais, e a verdadeira compreensão de nosso relacionamento com Jesus – a ORAÇÃO.

A oração leva-nos a silenciarmo-nos, e a partir do silêncio que o caminho de escuta do outro se constrói.

Não se conhece uma pessoa se caminharmos à sua frente, ou se tivermos a pretensão de anteciparmo-nos aos seus projetos e aos seus desejos. Para conhecermos Jesus – ou qualquer outra pessoa – é necessário distanciamento e proximidade, quão necessário possamos para não esbarrarmos ou atropelarmos o outro, como um caminhar “atrás”; é PRECISO que vejamos onde Jesus coloca seus pés, como Ele enfrenta a vida, quais estradas Ele decide percorrer.

Um discípulo deve SEMPRE se perguntar: “Como Jesus colocaria seus pés nesta situação?”, ou seja, como Jesus se comportaria diante do que me aconteceu?

Quando Jesus propõe nesta reflexão, sobre a verdadeira compreensão de sua pessoa, que alguém renuncie a si mesmo, significa colocar entre parentes as próprias razões. A cruz a ser carregada não é a desventura que nos fere, mas, ela é a própria lógica do evangelho. Não podemos assumir a mentalidade e promover compreensão acerca do evangelho se não renunciarmos ao nosso próprio modo de pensar: o discípulo é aquele que decide todos os dias pensar e viver segundo o evangelho, segundo os critérios de Jesus. Por isso, todos os dias, o discípulo deve decidir renegar o próprio modo autorreferencial, egoísta e ambíguo de pensar e decidir.

Que o Senhor nos ajude na tarefa de compreendê-Lo.

Que o Senhor nos ajude no nosso crescimento espiritual.