O mundo moderno conseguiu tornar a morte algo vil, sendo tirada do mundo dos vivos, exilada das relações sociais. A nossa sociedade narcisista procura remover da memória os limites do ser humano, com destaque para a morte, evento que tem o poder de aniquilar todos os delírios de onipotência do homem.

Na operação anestésica de preservar o homem da morte, ele na verdade é afastado do elemento que mais o ajuda a compreender-se, que constitui o “caso sério” da vida, o enigma que pode se tornar uma grande revelação. A morte ajuda o homem a sair da banalidade e da mediocridade a que muitas vezes está preso.

O cristão compreende a morte de forma extraordinária. Ele põe a sua fé na ressurreição dos mortos. Sabe que a sua fé não salta esta importante etapa, mas ajuda-o a atravessar a dilaceração da morte. E que esta dilaceração dramática é assumida tão somente em Deus. O cristão aprende a “contar os dias” (cf. Sl 90,12). Isto é, assume serenamente o limite dos dias, a dimensão da temporalidade e, por fim, a morte.

O fiel consegue viver pacificado ao aceitar esses limites da existência. Pois, afinal, sua fé está fundada em Deus, que o chamou à vida e do mesmo modo o chama a Si através da morte.

A vida é uma luta sustentada pela fé de que a morte não tem a última palavra. A última palavra cabe a Deus e seu amor. Aquele amor que através da morte, conduz à vida eterna.

Fidelium animae per misericordiam Dei, requiescant in pace.