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O inferno, senhora, é não amar mais

Para evitar o desequilíbrio, o mundo antigo estabelecia algumas leis que determinavam limites e comportamentos. O amor, por exemplo, deveria permanecer dentro de limites bem precisos: “amarás o teu próximo, odiarás teu inimigo”. E estas leis, ainda hoje, habitam nossos corações. Nós mesmos vamos estabelecendo fronteiras bem precisas para o amor. Decidimos qual é o nosso grupo ou, a nossa tribo, e os outros [com os quais não nos simpatizamos] devem permanecer fora do mesmo. É um modo que encontramos para não “desperdiçar” o amor. Mas, há de lembrar que o amor é como a água, que ao permanecer em um mesmo recipiente, por muito tempo, sem escorrer ou fluir, sem transbordar para o meio, adquire odor fétido, torna-se não potável, inapta de ser consumida, mesmo por aquele que a detém. O amor verdadeiro não é aquele compartimentado nos círculos privados, nos “grupinhos” fechados.

Não é por acaso que Jesus muda completamente a ideia de próximo: na parábola do Bom Samaritano (cf. Lc 10,25-37), Jesus esclarece que o próximo não é aquele para o qual eu devo me dirigir, mas sou eu que devo fazer-me próximo de todo homem. Porém, agrada-nos etiquetar, segundo a nossa própria predileção: “este sim, este não”, “este pode, este não pode”.

Jesus desmonta pedaço por pedaço a ideia ocidental que possuímos de reciprocidade [no amor] e o nosso desejo de “equilíbrio”: àquele que te fere na face direita, oferece-lhe também a esquerda (cf. Mt 5,39). Tenho pensado sobre este exercício indicado por Jesus, e ao fazê-lo, a perspectiva que vejo as coisas do mundo muda. Passo a vê-la sob outro ponto de vista. Não significa que a dor passa, mas não permaneço fixado sobre o ocorrido, apenas tomo distância, desvio o olhar do que era, paro e penso, a uma distância adjacente do fato.

Se alguém te pedir a túnica, dá-lhe também o manto (cf. Mt 5,40). Assim, estarás “nu”, com a tua fragilidade, sem o temor de ser visto na tua pobreza. Como o pai da parábola do Filho pródigo, que sai para encontrar o filho mais velho, e lhe apresenta seu coração “nu”, frágil, de pai. A força daquele pai está na coragem de mostrar-se desarmado diante do filho, sem defesa (cf. Lc 15, 28).

Se alguém te obrigar a andar uma milha, caminha com ele duas (cf. Mt 5, 41). Assim, terás tempo de conhecer quem é, tempo para escutar a sua história, para não julgá-lo de modo apressado. Oferecendo-lhe o tempo do qual ele necessita e que você pode e deve lhe dar.

Quando não retiramos o amor de nossas redomas, dos círculos fechados, corremos o risco de desfigurar o sentido real do amor ensinado por Cristo. Arriscamos de manter o amor fechado nos nossos bancos de egoísmo e de satisfação pessoal. Dá a quem te pede e quem deseja algo emprestado, não dê as costas. Coloque amor nas tuas relações, ame mesmo que depois não recebas nada em troca. O amor não é reciprocidade, é “desperdício” [demos um sentido positivo a esta palavra]. O amor não é equilíbrio, é loucura.

Quem está continuamente fazendo as contas daquilo que deu ou recebeu, não é capaz de amar. Jesus parece bem convencido de que o equilíbrio, não nos leva à perfeição. A perfeição é o fruto maduro do desperdício. O termo grego com o qual Mateus indica os perfeitos é teleioi, aqueles que chegam ao objetivo, aqueles que perseguem a meta da própria vida. Poderíamos, então, pensar que é perfeito quem vive em plenitude o desperdício do amor? Sim, porque assim Deus se apresenta como aquele que desce de seu cavalo para socorrer um desconhecido meio-morto na estrada (cf. Lc 10, 33). Como quem derrama um vaso de alabastro sem medir consequências (cf. Mt 26,6-13)… a plenitude do amor, um amor que não é cálculo, mas desperdício abundante.

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