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A ascese cristã

“Não se nasce cristão, torna-se” (Tertuliano). Este “tornar-se” é o espaço no qual se insere a ascese cristã. Palavra que foi praticamente apagada do vocabulário da espiritualidade cotidiana dos fiéis. Para muitos, a palavra ascese é palavra suspeita. Para outros, é palavra incompreensível.

A palavra ascese deriva da palavra grega askein, que significa exercitar, praticar. Indica, antes de tudo, a aplicação metódica, o exercício repetido, o esforço sistemático para adquirir uma habilidade e uma competência específica, assim como o atleta, o artista, o soldado devem exercitar-se repetidamente até alcançar aquele nível de excelência desejado.

A ascese é uma necessidade para o homem. O crescimento humano, bem como a sua humanização exigem um correspondente crescimento interior. Exige dizer uns “não” para poder dizer uns “sim”.

A vida cristã é renascimento para uma vida nova, vida “em Cristo”. É
con-formar a própria vida com a vida de Deus. Exigindo assim do cristão capacidades não naturais, tais como a vida de oração e o amor aos inimigos e isto não é possível sem uma prática constante, um exercício, um esforço incessante.

Deve ficar claro também que o fim último da ascese é sempre levar-nos a amar, como Cristo amou. E é fato também, que esta experiência da ascese é profundamente marcada pelas quedas, fracassos, pecados e recomeço. Por isso, a ascese cristã, corretamente compreendida, é sempre absolutamente indissociável da graça de Deus. A ascese não objetiva o aperfeiçoamento do “eu”, mas a educação do “eu” à liberdade e à relação com o outro: o seu fim é sempre o amor e a caridade.

A ascese leva muito a sério o fato de que não se pode servir a dois senhores, ou se obedece a Deus ou se torna escravo dos ídolos. E mais: estando a serviço da revelação cristã, que confirma que a liberdade autêntica do homem está na sua capacidade de doar-se a si mesmo por amor a Deus e ao próximo, a ascese procura libertar o homem da philautia, ou seja, do excessivo amor de si mesmo, da egolatria, transformando, assim, o indivíduo em pessoa capaz de praticar a comunhão e a gratuidade, de fazer-se dom e de amar.

Uma ascese humanizada porque ajuda a ser mais humano, pode ajudar a se transformar em obra prima, obra de arte moldada pelo dedo do Criador. Vale lembrar que no mundo grego antigo a palavra askein, ascese era usada para se referir ao trabalho do artista. Com isso, poderíamos concluir que a ascese tem como meta colocar a vida do fiel sob o sinal da beleza, à sombra da beleza, que no cristianismo é o sinônimo da santidade.

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